quinta-feira, 12 de maio de 2016

Dois Dedos de Conversa com Gonçalo Almeida Garrett

Descontraído e afável assim é Gonçalo Almeida Garrett. Aos 41 anos e casado há 15, é o super pai de 3 crianças a quem procura proporcionar uma infância de afectos e experiências marcantes. O à-vontade com que troca fraldas e prepara biberons, é o mesmo com que organiza expedições à neve com os mais velhos ou passa tardes a brincar com os três quando a Mariana tem trabalho para pôr em dia. É na sua profissão e no seu dia-a-dia que valoriza e constrói aquilo em que mais acredita: a ligação à família e o eterno regresso às origens.

1. Como é que um gestor agrícola, desconhecido do público e habituado a um pacato quotidiano no Alentejo, foi parar à capa da revista "Cristina"?


A capa da revista Cristina aconteceu por intermédio de uma grande amiga nossa, a Madalena, que me contactou a sondar a minha disponibilidade. Conversámos um bocado e achamos que poderia ser uma ideia gira, para fazer uma surpresa a Mariana. As pessoas que me conhecem sabem que não sou dado muito a este tipo de coisa, e foi por isso mesmo que decidi alinhar nesta aventura, e ainda bem que o fiz, pois adorei toda a interacção com a Cristina Ferreira e sua equipa. São pessoas fantásticas, de uma disponibilidade e simpatia extrema, apesar de toda a carga horária e de trabalho que a profissão lhes exige. Gostei tanto, que quando ligaram para participar uma segunda vez no numero de aniversário da revista Cristina, disse-lhes logo que sim e que podem sempre contar comigo.
"Cristina", Dez 2015

2. Voltando ao início, nasceste em Lisboa, viveste em S. Paulo, uma das cidades mais cosmopolitas do mundo e, ainda criança, regressaste a Portugal para viver no sossego do Tortosendo, perto da Covilhã. Que episódios mais marcantes guardas dessas vivências?

Para mim, o Tortosendo é onde gosto de estar, é a minha casa, é para onde gostaria de voltar. Vim de São Paulo com cerca de 10 anos de idade, e deixar uma cidade com mais de 10 milhões de habitantes, para vir para uma vila do interior de Portugal dos anos 80 foi um choque muito grande. Ainda me lembro bem do primeiro dia de aulas, marcou-me muito o facto de na hora da chegada, ter quase toda a escola à minha espera na entrada para ver o "bicho" que vinha do Brasil. Durante uns anos deixei de ser o Gonçalo, para passar a ser o "brasileiro". Como era diferente, tive muitos problemas ao início, com muitas brigas no pátio da escola, mas tive de me virar e acabei por me tornar amigo de todos.

Outro dia, em conversa com um amigo meu desses tempos, foi-me lembrado que eu tinha uma frase típica quando começavam a embirrar com o "brasileiro" que era "não enche o saco...leva um soco!" e ele sabia que o melhor era seguir no meu conselho...


Tenho pessoas lá, a quem chamo amigos, de todos os estratos sociais, e quem vive no Tortosendo entende aquilo que digo. Lá conhecemo-nos todos, fizemos todos a escola juntos, fomos todos juntos de excursão com o Colégio, fomos todos nadar ao rio Zêzere, andávamos juntos de bicicleta (Orbita, claro) nas ruas do Tortosendo, muitos de nós iam para a Serra da Estrela fazer ski (esses eram dias fantásticos), todos se encontravam na feira de São de Miguel no bairro do Cabeço em Setembro e, quando chegou a idade de sair à noite, todos iam parar ao "Número Um", a melhor discoteca de todos os tempos!

Não trocaria o destino que tive por nenhum outro. Viver no Tortosendo fez de mim a pessoa que sou hoje, muito mais vivida sócio e culturalmente do que aqueles que se ficam apenas pela metrópole. Ensinou-me a gostar de estar com toda gente, desde a pessoa mais simples até ao mais importante, com respeito, sem preconceitos ou snobismo. E por muito mundo que tenha corrido desde então, foi lá que acabei por conhecer, durante umas férias enquanto ainda vivia em Inglaterra, a Mariana, com quem casei e que hoje, passados 17 anos, temos três filhos fantásticos e todos gostam de ir ao Tortosendo, a minha casa.
3. Mais tarde estudaste em Inglaterra e trabalhaste em empresas como a BMW ou a Bergé. Como se dá o salto para que um engenheiro mecânico de formação passe a dedicar-se ao alentejo e à agricultura de alma e coração?

Bem, sabia que havia a possibilidade de um dia ter de ir para os negócios de família, mas confesso que nunca tinha imaginado que fosse tão cedo. Apesar de ter tirado um curso técnico de formação, sempre gostei de gestão e da área comercial, nunca perdendo a oportunidade de obter mais formação nestas áreas. No Tortosendo, do lado de meu avô Gonçalo, a nossa principal actividade era industrial (lanifícios) mas, infelizmente, por motivos alheios à vontade do nosso ramo da família, fomos forçados a deixar esse negócio, ficando apenas a parte florestal (Pinhal). No Alentejo, do lado da minha avó Maria Antónia, a actividade é mais variada, para além da floresta (montado de sobro e pinheiro manso), dedicamo-nos à pecuária, vinha e vinho; olival e azeite; turismo de natureza e feno de luzerna.

Tudo somado, gerimos a actividade de cinco empresas e mais dois empresários em nome individual num total de mais de 4000 hectares de terras florestais e agrícolas, em actividades que vão desde a agricultura com culturas de regadio e florestais, à produção e comercialização de produtos de marca própria (vinho e azeite) e imobiliária. Neste contexto, quando me pediram para sair da indústria automóvel, onde me sentia "confortável", para abraçar este projecto familiar num ramo completamente diferente, foi desafiante, motivador e um orgulho o facto de a minha família se ter lembrado de mim e confiado a missão de dar continuidade à Rovisco Garcia. Impossível recusar.



4. O teu local de trabalho é uma vastíssima área de floresta gerida de forma tradicional pela vossa família há muitas gerações. Dirias que a sustentabilidade e o respeito pelo ritmo dos ecossistemas é tão ou mais importante que o crescimento do negócio?

Cerca de 75% da área total que gerimos é floresta e o montado (sobro e pinheiro manso) assumem um papel muito importante pois, apesar de ocuparem cerca de metade da área florestal, representam 70% da rentabilidade total. Em Portugal há um ditado que diz o seguinte: "vinhas das minhas, olivais dos meus pais e montados dos meus antepassados". Eu tenho de agradecer aos meus antepassados por terem mantido a floresta para nós e espero fazer um bom trabalho para as gerações futuras. Na floresta, e na natureza em geral, tudo leva bastante tempo para acontecer, mas os danos que se produziram, pela revolução industrial; por crime; negligência; más práticas agrícolas; sobre exploração das terras ocupadas no pós-revolução; foram muito rápidos, alguns quase imediatos e irremediáveis.

Como todos os temas ambientais da actualidade, a floresta assume um papel vital para todos e temos de cuidar dela: enterrando os mortos; cuidando do vivos e tratando das futuras gerações de árvores. Mas remediar o que está mal leva muito tempo. Por exemplo, uma árvore como o sobreiro leva cerca de 40 anos até estar "adulta e produtiva", pelo tudo o que faça hoje vai produzir resultados quando eu já tiver mais de 80 anos de idade (se ainda cá estiver!).

Deste modo, o que fizemos foi diversificar a actividade, para não estarmos dependentes da floresta, e poder reinvestir nela tudo o que possamos, fazendo uma gestão responsável e sustentável, com respeito pelo meio ambiente e privilegiando o valores naturais sobre os meramente económicos. Esta nossa filosofia de gestão permitiu-nos fazer parte de um grupo de certificação reconhecido pelo FSC e PEFC, assim como fazer parte do grupo das "Wildlife Estates", que reconhece as melhores propriedades da Europa pela sua gestão com respeito à biodiversidade.



5. No documentário que a BBC produziu, com a vossa colaboração e em parte a vossa herdade, além das actividades ligadas à agricultura e pecuária, mostra-se com detalhe a espectacular diversidade de fauna e flora locais. Como é que a BBC vos "descobriu"?
Descobriram-nos através da cortiça. O meu pai é reconhecido no meio como empenhado, pioneiro e inovador no que diz respeito ao montado e sua gestão (pioneiro e inovador não significa investir em tecnologia e sim fazer as coisas de forma diferente). Na altura, quando a BBC contactou algumas entidades com a intenção de realizar um documentário sobre o montado e a biodiversidade, foi quando chegaram até nós, por sugestão e reconhecimento do trabalho que já fazíamos nesta área.

6. Os teus filhos já foram contagiados pela paixão alentejana? Afinal para eles é a casa de família...

Claro que sim!. Eles adoram o campo, os animais, os passeios, a "soltura" e o espaço para poderem correr, brincar e explorar.



Todas as semanas, fora da época das chuvas" recebemos grupos dos EUA e Canadá, que nos vêm visitar e aprender um pouco sobre a floresta mediterrânica, o montado e a sua importância para a preservação da biodiversidade. No fim da visita oferecemos um almoço em casa da minha avó com a família, onde os miúdos, quando estão de férias, também conseguem estar presentes. É engraçado ver como as crianças já falam com estes nossos convidados com paixão e razão sobre o "nosso Alentejo".

7. Durante a semana, embora vivas entre o Estoril e o Alentejo e faças a gestão de cinco empresas, és um marido e um pai presente. Como organizas tempos e saudades?

As saudades são ingeríreis, mas estou agradecido à Internet, ao telemóvel e a todas as novas tecnologias, pois permitem-nos estar mais perto e contactáveis hoje em dia. Quanto ao tempo, obriga-me a andar muito na estrada, mas agora que temos escritório em Algés permite-me vir pelo menos uma vez a meio da semana (4ª feira), e assim apenas durmo duas noites fora de casa em vez de estar toda a semana fora, o que é importante para a Mariana e para os miúdos.

8. Depois de dois filhos rapazes, que estão agora na adolescência, regressas às rotinas de um bebé e às noites mal dormidas com a chegada da "princesa" lá de casa. Como está a ser reviver a experiência 10 anos depois?

Com preguiça, muito cansaço mas muita alegria! Já não temos vinte e tal anos de idade como foi com os outros. Estamos mais velhos e isso já se sente. Mas quando a pequena "pirata" olha para nós e ri com aquela cara redonda, não há como não nos derretermos com ela. Os irmãos tem sido fantásticos e são uns amores com a mana, desde que não se lhes peça para mudarem as fraldas! Sai logo um "Isso é yacaaa pai!". Estou muito feliz pela vinda da Victória, pois quando for velho e já toda gente estiver farta de mim, os meus filhos homens casados e entregues ao "inimigo", vai ser ela a cuidar e a mimar o velhote.

9. Que valores ou pilares consideras essencial transmitir aos teus filhos?
Espero que os meus filhos, acima de tudo, sejam eles mesmos e não algo que alguém ou alguma entidade queira que eles sejam. Quero que tenham as suas próprias ideias formadas e que não pensem pela cabeça dos outros. Costumo dizer-lhes "não sejam ovelhas" que é uma coisa muito comum hoje em dia. Temos de saber ouvir e respeitar os outros, mas temos de pegar nessas ideias ou conversas, reflectir sobre elas e formar a nossa própria opinião sem medo de exclusão. O resto, a honestidade, a integridade, o empenho, o respeito, a bondade, entre vários valores e princípios que gostaria que lhes ficassem intrínsecos. Apenas podemos repetir vezes sem conta quando a situação exige que o façamos; dar o exemplo e esperar que quando eles tenham de fazer as suas escolhas de forma autónoma se lembrem disso ou oiçam uma vozinha lá no fundo do subconsciente que os aconselha bem para fazerem a escolha acertada.


Para viver o Alentejo na primeira pessoa, não perca o documentário da série BBC Vida Selvagem sobre o montado que a família do Gonçalo preserva há gerações. Sente-se confortavelmente, reúna a família, clique no link abaixo e deixe o horizonte entrar!

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